II






minha recusa do nada
levanta-se
liberta e
vai

como bala certeira
dum ideal não corrupto
como palavra de ferro
numa boca que não cala

             ( e ai daquele que ousar
              chamar-me reaccionária )

minha verdade não tem preço
minha vontade não cede
hei-de continuar presente
arma pronta a disparar
como eu somos milhões
braços erguidos no ar






christian martin weiss





trilogia revolucionária - I






vendilhões dos tempos
revolucionários
de última hora
demagogos
inventados

          acuso-vos

              -quem vos deu o direito
              de destruir o sorriso das crianças?

fariseus do meu país
guerrilheiros
de cartilha
teóricos
parasitas

          recuso-vos

              -quem vos passou procuração
              para jogar com a vida dos homens?

senhores mercenários
de partidos
oportunistas
copiados
dissidentes

          aponto-vos

              -quem vos consentiu as palavras
              com que queimais as searas?






christian martin weiss





jogo de xadrez






seremos apenas peões
simples jogo de xadrez
ou
continuaremos ausências
presenças de quando em vez?

meu país de marinheiros
minha cinza de fogueira
onde estão meus companheiros
quem roubou nossa bandeira?

                               vejo Outonos
                               sinto Invernos
                               quando ainda existíamos
                               quando não petrificados
                               ninguém nos demovia

quem escreverá nosso nome
em rituais de verdade?

                               porque POVO
                               somos pássaros
                               cativos
                               em LIBERDADE






christian martin weiss





(ru)minando






quem construiu meu leque de certezas?
quem mastigou minha maçã às dentadas?
ontem
subi montanhas a pique
desci a vala dos renegados
fui campo
hoje
sou toupeira
.deixem-me enterrar os mortos
.deixem nascer faróis de espanto
em meus dedos ávidos de justiça
.porque demoram?
.peguem minha mão rubra de tinta e
abatam o gado do mercado vida





christian martin weiss





2ª fase






estou farta
de ouvir
“patos" grasnarem política

                               ( profetas )

                              -quem vos conhecia?

foram silêncios
na luta
foram medo
em recortes

ontem
cansei-me
de os esperar
hoje
farto-me
de perguntar

                               ( oportunos)

                              -quem vos quer?





christian martin weiss





1ª fase







quis
erguer bandeiras rubras em meus braços
universos azuis em minhas mãos
florestas brancas em meus pés
como
hidra solta em mar cativo

quis
reter
vivências novas em meus olhos
palavras claras em meus lábios
espaços livres em minha mente
na voragem absurda do meu país





christian martin weiss





a explicação que se impõe







este blogue/livro ou "caderno de apontamentos" ,de certo modo ,é um repertório de memórias .de memórias escritas ,ao longo de quatro fases ,distintas no tempo e nos seus conteúdos poéticos .também ,de certo modo ,traça o meu percurso ,como autora ,ao longo dos anos .foi assim que comecei ,num período já distante ,no entanto ,bem datado - 1960 ,e ,décadas de 70 ,80 e 90 do séc. XX

de anteriores rabiscos ,não re.tenho memórias ( pelo menos ,não as “encontro” )

a primeira fase  morte e génese de um país - contém alguns textos que escrevi antes e logo após o 25 de Abril e que me definem como cidadã e como a autora que fui
a segunda - recado aos poetas sem tempo - reflecte as minhas primeiras influências ,quiçá ,poéticas e define-me como pessoa na década de 70 ,do século passado
a terceira - comédia em três desacatos ou um exercício sobre um poema de Carlos Oliveira - relembra um prémio que a minha obra mereceu
a quarta lector in fabula - é de certo modo uma súmula de cantares de amigo ,de escárnio e maldizer escrita com muito amor ,amizade e algum desdém

assim fiz-me ,escriba ,em textos ( cabe ,agora ,ao leitor/autor definir-me ) mais ou menos breves .daqui voei ,tendo ,todavia ,o cuidado de preservar as minhas raízes escreventes

deixo-as ao sabor de quem as quiser por companheiras…






epígrafe

























primeira fase

“MORTE E GÉNESE DE UM PAÍS”